Tuesday, January 29, 2013

A Lógica Invertida de Spielberg


A Lógica Invertida de Spielberg

Louis Menand
Especial para o “NYR of Books”
Publicado no Jornal “Folha de São Paulo” no Caderno Mais! Em 11 de outubro de 1998
Louis Menand é professor da Universidade de Nova York
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves






            “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg, é a história de oito soldados estadunidenses que, depois de sobreviver ao desembarque no Dia D na praia de Omaha, recebem ordem para encontrar um soldado, Ryan, que saltou de pára-quedas durante a invasão e está perdido na Normandia.
            Ryan é o caçula de quatro irmãos; os outros três morreram em combate. O Exército quer descobrir se o rapaz está vivo e, se estiver, levá-lo de volta para a sua mãe. A patrulha de resgate se mete em situações complicadas, mas encontra o homem e, apesar de sofrer terríveis baixas, consegue matar alguns alemães pelo caminho.
            Não há nada incomum nessa história. É, talvez, a trama mais simples e verdadeira que o homem conhece: salvar uma vida. É um enredo que garante derreter os mais empedernidos: a garotinha retirada viva do poço, a libertação de reféns, a absolvição do inocente no último instante. É Cristo ressurgindo dos mortos. Na há público que resista. Pode-se sair do cinema revoltado com o descaramento da coisa, mas é impossível se livrar do nó na garganta.
            Existe  quase um consenso de que “O Resgate do Soldado Ryan” não é um filme convencional. Tem sido considerado uma espécie  de inovação entre os filmes de guerra, tão diferente de realizações que já foram elogiadas pelo seu realismo – como “Platoon”, de Oliver Stone, e “Gallipoli”, de Peter Weir – , que esses filmes nem mesmo são citados como pontos de comparação.
As pessoas concordam que a história é um pouco inverossímil, mas afirmam que o tratamento dado por Spielberg não é inverossímil. Dizem que ele nos mostra, como se fosse a primeira vez, a guerra sem pieguice ou exageros patrióticos, que substitui a violência dos efeitos especiais exagerados por uma imagem verídica do horror e da desumanidade da violência organizada. Essa opinião baseia-se principalmente em duas cenas, uma logo no início do filme e outra perto do final. “O Resgate do Soldado Ryan” começa com uma tomada da bandeira estadunidense, seguida de uma cena curta, passada na atualidade, em que vemos um veterano visitando um cemitério militar na Normandia.
Então, com um corte que sugere estarmos dentro dos pensamentos desse homem, retrocedemos no tempo para o Dia D e uma reencenação de 20 minuto do desembarque  na praia de Omaha. Isso introduz à história do Soldado Ryan, cujo clímax é outra cena de 20 minutos de combate entre soldados estadunidenses e uma unidade de tanques alemães. Depois voltamos ao presente e ao nosso veterano, cuja identidade, agora, conhecemos. Chorando, ele faz continência para uma lápide. Repete-se a imagem da bandeira estadunidense.
As cenas de batalhas, como todos concordam, são virtuosismo cinematográfico. A segunda é um tanto sobrecarregada de incidentes: os personagens já estão totalmente desenvolvidos, por isso não podem ser mortos com demasiada casualidade. Mas a primeira seqüência, na praia de Omaha, não conhecemos os personagens, e a casualidade, o caráter aleatório, da violência é precisamente o que a torna terrível. Enquanto as balas atingem a areia ao seu redor, um homem procura numa pilha de corpos o seu braço decepado, encontra-o e vai embora; um soldado tira o capacete depois de escapar de uma refrega, mas no instante seguinte um tiro lhe arranca o topo do crânio. Em “O Resgate do Soldado Ryan” não vemos homens que simplesmente morrem; os vemos sangrar até a morte, gritando por suas mães, com intestinos espalhados sobre a areia.
Nisso Spielberg é um verdadeiro mago. Suas imagens tem uma rara nitidez visual e aural, quase uma hiperclareza – são iguais à vida, com iluminação melhor. As imagens nunca representam a confusão sendo confusas, e, mesmo quando o ruído é quase ensurdecedor, como nas cenas de batalha em “Soldado Ryan”, os sons que o compõe são identificáveis.
O desembarque na praia de Omaha lembra o afogamentos do africanos em “Amistad” ou a destruição do gueto em “A Lista de Schindler”. Dá-nos a sensação de estar presenciando algo que não deveríamos, algo assombroso e indelével. Mas não representa a transcendência dos efeitos dos efeitos especiais. Representa sua consumação. É o triunfo da técnica. Isso não pretende reduzir a obra, e sim lhe dar a devida proporção. Spielberg quis atingir um grau de realismo excepcional em ^Soldado Ryan” e conseguiu por meio de elaborados efeitos especiais (que outra coisa poderia usar?).
Mas a serviço de que ideia?  O que o filme nos diz sobre a guerra? Que é hedionda. E também que é nobre e necessária. A opinião geral de que “Soldado Ryan” transmite repulsa pela guerra porque contém imagens revoltantes me parece inverter a lógica do filme. Sempre pensei que o que torna a guerra repulsiva não é a possibilidade de ser ferido ou morto; é a possibilidade de ferir ou matar outra pessoa. A guerra é excepcionalmente terrível não porque destrói seres humanos, que podem ser destruídos aos montes de outras maneiras, mas porque transforma os seres humanos em destruidores.
Há várias mortes revoltantes em “Soldado Ryan”, mas são todas elas mortes estadunidenses. Quando os alemães são atingidos, caem como pinos de boliche e não levantam. As mortes deles são mortes de cinema. E, quanto mais agônico é o sofrimento dos estadunidenses, mais nos alegramos ao ver a chacina dos alemães. O realismo apenas intensifica o entusiasmo.
Duvido que fosse a intenção de Spielberg, e a disjunção entre o objetivo e o resultado revela o maior problema do tipo de filme que ele deseja fazer hoje. Ele quer que o público vivencie, quando está habituado meramente a reagir. Ele quer dar o seu testemunho numa mídia feita para diversão da massa. A incongruência sobressai na diferença entre a reação da maioria dos críticos a “O Resgate do Soldado Ryan” e a reação dos expectadores pagantes. Os críticos costumam assistir a filmes em salas especiais. É como assisti-los numa igreja. Todos estão concentrados; ninguém se levanta para comprar pipoca ou procura balas na bolsa. O público dessas salas não reage ao filme.
Mas o dos cinemas sim. Vi “Soldado Ryan” numa grande sala no centro de Manhattan, num sábado à noite, um dia depois da estréia, com cerca de 200 pessoas. Não eram espectadores desavisados, em busca de emoções baratas. Haviam lido críticas, estavam preparados para serem influenciados.
Na metade do filme há uma cena em que um membro especialmente simpático da patrulha de resgate (na verdade são todos simpáticos) se esvai em sangue, com evidente sofrimento, durante o ataque a um ninho de metralhadora alemão, perdido num campo francês. Depois que o soldado morre, seus companheiros correm até a posição inimiga e espancam o único sobrevivente alemão, que tenta freneticamente se render. Um tímido interprete que acompanha a patrulha e nunca havia visto um combate se opõe histericamente àquela brutalidade. “O que é isso?”, ele grita aos companheiros estadunidenses enquanto o apavorado alemão choraminga. “Isso se chama guerra”, disse o homem sentado à minha direita (que antes estivera chorando) para ninguém especial. Mais adiante o interprete se vê confrontado com a possibilidade de matar um soldado alemão. “Mate-o”, gritou uma mulher na platéia à minha frente, expressando claramente o sentimento de toda a casa.
Isso não significa que “Soldado Ryan” seja pior que a maioria dos filmes de guerra de Hollywood, em que os heróis matam os bandidos, sob nosso aplauso, e morrem por causas justas, para nosso pesar. Significa apenas que, nesse sentido, “Soldado Ryan” em nada difere da maioria dos filmes de guerra de Hollywood. Os heróis de Spielberg, liderados por Tom Hanks, são mais palpáveis e suas mortes são, por assim dizer, mais verídicas.
Mas, apesar de sua maneira naturalista, são quase exagerados quando o coronel de Robert Duvalll em “Apocaliypse Now” que voa para a batalha escutando “A Cavalgada das Valquírias’ e exprime seu desprezo pelo inimigo com a fala – uma das mais cinematográficas de todos os tempos – “Charlie don’t surf”. Não há menos ambigüidade em “O Resgate do Soldado Ryan” do que havia em “O Mais Longo do Dias”.
Para ser justo, os cineastas realmente se esforçam. A história do soldado Ryan pretende levantar a questão ética: está certo arriscar oito vidas para salvar uma? A patrulha discute essa questão até certo ponto. Mas quão complexa ela pode ser? Se os soldados não lutarem pela “mãe”, lutarão por quê? Nenhum dos homens realmente acredita que sua missão seja fútil, e o roteiro não seria verossímil se deixasse dúvida nesse sentido. Quando não estão falando da guerra, eles conversam sobre suas famílias e suas mães – que, obviamente, é a forma pela qual compreendem a importância maior de sua missão. Lutar para devolver o único filho que resta a uma mãe atormentada é mil vezes mais concreto do que lutar para libertar a França e 10 mil vezes mais favorável à emoção cinematográfica.
Se os soldados conseguirem libertar alguns franceses durante a missão, tanto melhor. Mas o que significa a França para eles ( e para nós, nessa caso?). O que a França é para uma mãe?
Havia maneiras de fazer a história do soldado Ryan ter algum peso moral plausível. Uma seria ter feito de Ryan, quando finalmente é encontrado, um personagem de proporções menos admiráveis. Nesse filme, evidentemente, ele é tão inocente e nobre que recusa a oferta de voltar para casa; comovido pela notícia sobre seus irmãos, decide ficar e enfrentar a morte ao lado dos camaradas. É esse tipo de filme. A possibilidade de que Ryan pudesse ser um objeto indigno de coragem e sacrifício nunca foi cogitada, é claro.
A outra opção seria fazer da missão um produto de corrupção de calculismo – colocar os soldados na condição de ter de fazer a coisa certa pelo motivo errado, fazê-los sofrer e morrer para algum general vaidoso ou ambicioso burocrata no quartel-general subisse na carreira. Essa possibilidade é tão óbvia que os realizadores de “Soldado Ryan” parecem ter feito questão de recusá-la.
O conflito entre soldados e oficiais é uma constante nas histórias de guerra, assim como o conflito entre delegados e detetives é uma constante nas histórias policiais. A coragem das pessoas na linha de gente é realçada pelo egoísmo e incompetência das pessoas que os comandam. A dramatização desse conflito é perfeitamente compatível com certo estilo de patriotismo – é a única premissa nos filmes de Rambo. Quando Tom Hanks, no início do filme, re refere à missão como um exercício de relações públicas, está demonstrando o exato grau de cinismo que se espera de um duro e honrado capitão do Exército. Mas não passa disso, nem o poderia sem prejudicar a força de seu personagem. Porque já sabemos que surgiu a idéia da missão e que não envolvia qualquer cinismo.
Essa parte do filme me parece superar Capra. Uma funcionária pública em Washington, chefe da equipe que datilografa cartas para as famílias anunciando a morte de seus entes queridos na guerra, percebe que havia enviado três cartas para a mesma Sra. Ryan (que, é claro, mora em uma fazenda em Iowa). A supervisora civil informa seu superior de uniforme, que informa seu superior de uniforme (e sabemos que não se trata de um burocrata porque lhe falta um braço), e ambos avisam ao chefe do Estado –Maior do Exército, General George C. Marshal em pessoa, com a respeitosa recomendação de que o sobrevivente do jovens Ryan seja localizado e removido do combate.
O general concorda. Um assessor começa a resmungar que “não se pode parar uma guerra por causa de um soldado” e assim por diante, mas o grande homem ergue a mão. Vai até sua mesa, pega uma carta que por acaso acabara de enfiar num livro e começa a ler. É uma carta grave e comovente para uma mulher cujos cinco filhos morreram em combate. No meio da leitura, Marshal pousa a carta e recita de cor  as frases finais e diz o nome do signatário: Abraham Lincoln. E assim, engolimos um grande, um enorme anzol.
A Segunda Guerra Mundial foi a luta contra um mal que não precisamos pintar em tons de cinza, mesmo que se deseje retratar individualmente combatentes inimigos, e os estadunidenses que nela morreram merecem nossa reverência. Mas aqui não estamos julgando a Segunda Guerra Mundial; estamos julgando um filme. Desde que Spielberg optou pela seriedade, em “A Lista de Schindler”, ele vem trabalhando numa espécie de terra de ninguém entre o entretenimento e a arte.
Os grandes espetáculos de Hollywood sobre temos históricos quase sempre foram manipuladores e não demonstram muito embaraço a esse respeito. Os cineastas procuram instigar o público porque o público quer ser instigado. Ele quer torcer, chorar e comprar pipoca. O sentimentalismo é um pressuposto dessa experiência e, embora detalhes omitidos e os clímax forjados possam ser de uma desonestidade irritante, na verdade são a manifestação de uma honestidade mais profunda.
Lembram-nos que estamos sendo iludidos porque fomos buscar distração; portanto não estamos sendo enganados. E, não raro, apesar da ilusão e da pieguice, brota desses filmes algum tipo de verdade, mesmo que seja a que vislumbra de tanto ver nossa realidade falsificada. Mas essa verdade nunca é um sentimento moral explícito. Esse sentimento é mera adulação: o que as platéias querem ser levadas a pensar é o que já pensam. Ninguém veio em busca de polêmica.
Uma ambição da arte é fazer as pessoas pensarem o que não pensavam, ou o que já pensavam sem realmente se dar conta, e o grande problema de Spielberg como cineasta é que ele jamais permite que seu público pense. Só permite que ele sinta. Parece insistir que é o único entre todos os diretores de Hollywood que faz justiça a seus temas, mas que não pode simplesmente os apresentar de graça.
Ele exige nossa constante cumplicidade emocional em troca de sua fidelidade. Parece acreditar que, caso deixe o anzol escapar por um segundo de nossas bocas, teremos a idéia errada sobre os nazistas ou a escravidão. Ele não deixa nada ao acaso. Põe música por trás de tudo. Se conseguisse respeitar um pouco menos seus temas ou um pouco mais seu público, faria filmes melhores.

Monday, January 28, 2013

A Materialidade do Medo


A Materialidade do Medo

Mario Vitor Santos
Publicado no Jornal “Folha de São Paulo” no Caderno Mais! Em 11 de outubro de 1998


No início e no fim de “O Resgate do Soldado Ryan”, o ex-combatente James Ryan (Matt Damon) visita, nos dias atuais, o túmulo do Capitão Miller (Tom Hanks), comandante morto na missão que dá título ao filme. À distância, intrigada, a família – mulher, filhos, netos – parece incapaz de entender o choro compulsivo, incontrolável de Ryan.
A cinde a tela: de um lado, os Estados Unidos, passivo, infantil e parvo, que nunca foi bombardeado ou invadido, a opinião pública que decide e dá apoio às ações estadunidenses no exterior. Do outro, os Estados Unidos que sobrevivei à Segunda Guerra Mundial, ainda em choque diante dos horrores daquele conflito, traumaticamente transformado por ele, como a Europa. Dois mundos que não se comunicam...
Parte da crítica internacional recebeu o filme com reservas, alegando que ele passa uma ideia arrogante, historicamente incorreta, de que só os estadunidenses entraram na campanha. É questionável, porém, se seria correto continuar classificando de “estadunidenses”, no sentido estrito, os soldados que entraram no corpo-a-corpo da guerra na Europa, da África e do Pacífico.
Os Estados Unidos inocente saudou o “Resgate”. Spielberg recebeu do Exército a mais alta medalha militar que um civil pode merecer. Apesar disso, o filme, especialmente em sua primeira hora, rompe o cordão sanitário criado em torno da guerra pelos oficiais de relações públicas do comando estadunidense.
São raras as descrições da Segunda Guerra que guardam a mínima correspondência com a crueza de um combate. O “Resgate” é dos poucos filmes a tratar do assunto com realismo, conferindo ao medo uma materialidade extrema. É uma obra dos sentidos, da visão, da audição (ou da surdez) e até do tato e do olfato.
O filme trafega da monumentalidade do horror, nas sequências das pilhas de corpos e partes de corpos no desembarque da Normandia, ao tédio e ignorância dos soldados, sua solidão e privações e a falta de sentido de suas ações.
No “front interno”, durante e depois da guerra, sua experiência era contada de maneira sistematicamente falsa e adocicada, para sempre deformada pela publicidade otimista.
Naquele que talvez seja o melhor livro já escrito sobre o assunto, “Wartime – Understanding na Behavior in the Second World War” (Tempo de Guerra – Entendimento e Comportamento na Segunda Guerra Mundial, Oxford University Press), o escritor e ex-tenente estadunidense Paul Fussel, participante do ataque na Normandia, trata da inocência em que o público era mantido em relação aos danos bizarros que a guerra causa aos corpos dos soldados.
Esperava-se que o corpo humano fosse atingido por balas e bombas, mas o alheamento era tal, lembra Fussel, que não se concebia que s soldados pudessem ser feridos, algumas vezes mortos, ao sofrerem o impacto violento de partes dos corpos de seus amigos retalhados por uma explosão.
Na era do eufemismo, as tropas aliadas raramente eram mostradas como vítimas de amputações traumáticas, apesar de os formulários individuais dos combatentes trazerem, junto aos dados como nome, idade e endereço, o espaço destinado a informar “membros perdidos’.
Nos combates, como nos acidentes aéreos, a visão das entranhas é muito mais familiar do que se imagina, ou se imaginava, antes da primeira hora do filme de Spielberg. Depois de edulcorar a Segunda Guerra por mais de cinco décadas, Hollywood afinal consegue encarar a verdade.
Truques de publicidade como os que adocicam a realidade dos conflito poderiam ter se repetido na Guerra do Vietnã caso a televisão e um jornalismo destemido e livre da censura não existissem.
O filme é atual porque as guerras recentes tentam retornar algumas teses da Segunda Guerra Mundial. Na Guerra do Golfo (aprofundando algo que já havia sido ensaiado na invasão do Panamá), o Estado-Maior estadunidense e “aliado” logrou reassumir o controle perdido das informações no Vietnã.
O comando restringiu o acesso dos jornalistas ao conflito, bloqueou imagens realistas, difundiu de novo a noção, comum no início da Segunda Guerra, de que os ataques de “bombas inteligentes” podem produzir impactos precisos, que aniquilam exclusivamente soldados inimigos, mantendo os próprios soldados a distância segura de qualquer perigo.
Apesar de suas referências e cunho patriótico, “O Resgate do Soldado Ryan” anima futuros objetores de consciência. Talvez o Exército estadunidense tenha se precipitado em dar uma medalha ao diretor hollywoodiano.
De acordo com Paul Fussel, os Estados Unidos até hoje não entendeu como foi a Segunda Guerra Mundial e por isso tem sido incapaz de usar esse entendimento para reinterpretar e redefinir a realidade nacional e assim chegar a alguma coisa próxima do que seja a maturidade pública.
Nas cenas do cemitério, o ex-soldado Ryan pode estar chorando pelo que passou na guerra, pelo sacrifício dos homens que o salvaram, mas talvez chore também por saber que, daquele inicático encontro dos EUA com a dor, da solidão daí decorrente, ele jamais será resgatado.

Um Campo de Sangue


Um Campo de Sangue

Charles Weeler
Para o “The Independent on Sunday”
Publicado no Jornal “Folha de São Paulo” no Caderno Mais! Em 11 de outubro de 1998
Tradução de José Marcos Macedo



Será que a chaga à praia de Omaha aconteceu mesmo como Spielberg descreveu? Tem fundamento a legação de que o diretor contou a história como ela realmente ocorreu? Em termos gerais, sim. Eu esperava, porém, que um cineasta na posse de recursos tão vultosos pensasse ser interessante dar algum contexto a sua história do desembarque, contando-nos não apenas o que aconteceu, mas a razão. Por que, por exemplo, foi necessário desembarcar tropas naquele exato ponto da costa?
A resposta, curta e grossa, é que os mentores do Dia D, não tinham escolha. A praia que foi apelidada de Omaha era a única brecha em 32km de penhascos que separavam as três praias inglesas e canadenses, a leste, as segunda praia estadunidense, Utah, no extremo ocidente da área de invasão. Sem Omaha, a distância entre os dois exércitos aliados teria convidado os alemães a contra-atacar, o que poderia repelir a invasão e prolongar a guerra na Europa por mais alguns anos.
A topografia de Omaha era ideal para a defesa. Nos dois extremos, os penhascos eram quase perpendiculares. Na maré média, um trecho de areia firme conduzia a uma saliência de seixo pesado, instransponível por veículos, e a um quebra-mar de 4,5m de altura, crivado de arame farpado. Transpondo o muro, havia uma estrada calçada, um profundo fosso antitanque,  um trecho de pântano  e uma subida íngreme até uma rede de trincheiras, em terreno elevado.
Uma combinação mortal de defesas naturais e artificiais fez de Omaha um campo de mortandade. O marechal-de-campo Rommel, que planejara a construção de um Muro Atlântico alemão desde janeiro de 1944, abastecerá Omaha com o maior número de obstáculos aquáticos de toda a costa da Normandia, a começar por um labirinto de estacas minadas e obstáculos angulares de aço para atuar como barreiras aos tanques e veículos de desembarque. Dominando a praia, e posicionadas para varrer cada centímetro quadrado de baixios, areia e seixos com fogo cruzado, estavam armas de 88mm e 75mm em casamatas de concreto, 38 barreiras de foguetes, seis poços multicilíndricos de morteiros e não menos que 84 ninhos de metralhadoras.
Quatro desfiladeiros formavam saídas da praia. No Dia D, eles estavam minados, eriçados de arame farpado e protegidos por 35 casamatas com soldados de infantaria armados de rifles, granadas e metralhadoras. Atiradores de elite jaziam escondidos, em intervalos. E havia mais defesas continente adentro.
No dia, parte do plano falhou e o resto não funcionou. O bombardeio naval foi muito breve e impreciso para propiciar ajuda significativa. A força aérea, temendo atingir os veículos de desembarque a meio caminho, lançaram suas bombas em campos até 8km para o interior, matando vacas em vez de soldados alemães. O almirante, preocupado em não ancorar seus navios dentro do alcance da artilharia alemã e ignorando o mar revolto e a falta de proteção contra o mau tempo, lançou seus veículos de desembarque a 30km da costa, forçando as tropas a suportar uma travessia inconcebivelmente ingrata e, por si só, subjugante, até a praia.
Embarcados na escuridão, às 3h, dez carregamentos, cada um com 300 homens, fizeram água e afundaram; 26 armamentos pesados foram direto para o leito do mar em seus veículos anfíbios, chamados de DUKWs. De 32 tanques anfíbios designados para uma divisão estadunidense, com ordens de abrir caminho para a saída da praia, 29 foram a pique. Sua perda aumentaria em centenas o número de mortos.
À espera dos estadunidenses não estava uma única divisão de segunda classe, como os mentores esperavam, mas duas. Ignoradas pela inteligência aliada, novas tropas da frente russa, tendo chegado à costa apenas alguns dias antes, haviam acabado de realizar exercícios anti-invasão. Quando a primeira linha de veículos de desembarque atingiu águas rasas, os defensores abriram fogo, matando inúmeros estadunidenses cruelmente mareados antes mesmo de poderem desembarcar.
Soldados de infantaria, com até 30kg de equipamentos nas costas, saltaram em águas profundas e se afogaram. Minutos depois, a praia era uma mixórdia de veículos de desembarque destroçados, carros de assaltos encalhados e homens feridos e moribundos. Uma guarnição perdeu 96% de seu efetivo antes de disparar um único tiro.
As defesas de Omaha eram simplesmente muito fortes para as forças enviadas contra elas, e muitos daquelas que alcançaram o topo da praia, suas armas perdidas ou emperradas com areia, amontoaram-se contra o quebra-mar durante horas, sem líder e em estado de choque. A coisa piorava à medida que sucessivas ondas de soldados da infantaria eram abatidas.
Dois fatores salvaram o dia. Um par de destróieres aproximou-se o bastante pra roçar a areia e disparar a queima-roupa nas fortificações alemãs. E alguns homens valorosos, notando ser impossível bater em retirada, reagruparam em número suficiente de companheiros para lançar um ataque aos postos elevados e atacar as posições inimigas pela retaguarda. À tarde, apesar dos reveses, fora feita uma cabeça-de-ponte.
E aí voltamos para “O Resgate do Soldado Ryan”, cortando a imagem dos soldados em paz eterna sobre a praia de Omaha para Washington, onde o General George Marshal, chefe do Estado-Maior do Exercido dos Estado Unidos, descobriu que três irmãos foram mortos em ação com intervalos de poucos dias, enquanto um quarto, esperava-se que ainda vivo, James Ryan, está em algum lugar na Normadia, desembarcando na França por sua divisão aérea. Marshal ordena uma missão de resgate.
Esse expediente é francamente inacreditável. Pode-se imaginar que uma mensagem de rádio ao comandante de Ryan – para qualquer unidade a que o soldado Ryan, se perdido, poderia estar agregado – seria o suficiente. Mas isso teria acabado com todo romantismo do roteiro.

Tuesday, January 22, 2013

As coisas como deveriam ser - Parte 1 - Blowtorch

Lança-chamas M2-2 com sua caixa
A arma: lança-chamas

     Reinaugurando as postagens no blog, transfiro para cá minha série As Coisas Como Deveriam Ser.
     Várias figuras lançadas tanto no Brasil quanto nos EUA, só no Brasil ou só nos EUA, concordamos que poderiam ser melhores. O Blowtorch é um bom exemplo: quem quer em campo de combate, selva, urbano deserto ou ártico, um soldado de parece um alvo com todo esse amarelo e vermelho? Céus, o cara é uma marca no campo de batalha!
     E vale lembrar que na Segunda Guerra Mundial esse caras com o tanque de combustível nas costas era alvos preferenciais, pois levavam vários companheiros quando explodiam em campo. Eram chamados de Zippo, em homenagem ao isqueiro.
     O uso do fogo como arma é tão antigo quanto sua descoberta, embora muitos afirmem que isso seja somente especulação. No entanto, flechas flamejantes, fogo grego, e tantos outros artefatos incendiário são constantemente descritos historicamente. 
"Aparato Portátil de Trincheira" da Primeira Guerra Mundias, também conhecido como "Protetor de Chamas" ou Lançador de Chamas". Esta foto aprensenta muitos pontos interessantes, a destacar: 1) Os dois pontos de spray estão em posições opostas, sigificando que a peça toda era colocada dentro ou sobre a trincheira; 2) Não há uma garrafa de pressão visível; 3) a vara e a mangueira são muito pequenas para uma descarga adequada; 4) Os tanques são extremamente grandes e provavelmente muito, muito pesados quando carregados; 5) as mangueiras de descarga à esquerda e à frente do operador tornam impossível escalar e muito difícil andar. Foto AMCCOM Historical Office, American University.
     Os primeiros lança-chamas foram testados por ingleses e alemães na Primeira Guerra Mundial. Mas somente durante a Segunda Guerra Mundial a tecnologia estava realmente disponível, e em cenários adequados, para que um lança-chamas fosse realmente útil como arma de infantaria. 
Teste de lança-chamas pelo Exército do Império Alemão, 1901
     Nas verdade, os alemães começaram a desenvolver os lança-chamas antes do início do conflito de 1914, desenvolvendo e usando muitos modelos. Os lança-chamas foram desenvolvidos como armas de choque para quebrar e penetrar o sistema defensivo de trincheiras. As tropas de choque  empregavam os lança-chamas em conjunto com granadas e armas automáticas, como uma prévia do que seria uma ataque de Blitzkrieg da Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro uso data de 1915 pelo Exército Imperial Alemão. Os testes remontam a 1901.
     Dessa forma, é natural que tal arma tivesse feito parte de arsenais de todos os lados na Segunda Guerra Mundial, embora já no começo a experiência anterior tenha munido os alemãs com excelentes modelos de lança-chamas e tropas muito experientes no seu uso.
Lança-chamas M1
Lança-chamas M2-2


     No entanto, os estadunidenses foram seus mais notórios usuários, principalmente na campanha do Pacífico, onde era o método preferencial para desentocar os combatentes japoneses de bunkers quando este insistiam em não sair de lá. É fato, no entanto, que os soldados estadunidenses não pediam muitas vezes para que os combatentes japoneses saíssem ou quiça esperassem muito tempo para fazer logo seu trabalho e ir para o próximo bunker. Foi um período de crueldade de ambos os lados.
Lança-chamas M2A1-2 - Réplica usada em encenações.
     Os EUA não desenvolveram lança-chamas na WWI e nem no período entre guerras, sequer fizeram pesquisas até sua entrada na WWII. Até esse ponto, a Kincaid Fire Extinqisher Co teve 90 dias para desenvolver o M1. Este foi um enorme fracasso, e foi feito um grande investimento em pesquisa e desenvolvimento do segundo modelo, o M2. O M2 acabou sendo o mais marcante lança-chamas do conflito, ainda mais pelo M2-2 ter sido pesquisado e desenvolvido em um período de tempo tão curto pela indústria, universidades, ramos do Exército e várias características foram copiadas de outros países. Muito da informação necessária para compilar toda a história do desenvolvimento se dispersou e foi perdida. Cada um dos poucos livros sobre lança-chamas requerem esforço monumental para recriar a informação.
     Mas voltando ao teatro de operações do Pacífico, foi somente lá que os Marines, encontrando um inimigo altamente determinado e entrincheirado, que o lança-chamas se mostrou a arma mais efetiva para o terreno e o uso tático a que se destina. Os Marines rapidamente desenvolverem a técnica e as táticas de uso, e seu uso foi um sucesso contra os japoneses.
     Na Europa, as distâncias de combate eram muito maiores e com menos vegetação que pudesse ser usada para se esconder. O alcance curto do lança-chamas (o M1 atingia 15 metros, o M2-2, 20 metros), mesmo tendo modelos que podiam ser montados em veículos, o lança-chamas era usado em casos isolados e ficava na retaguarda até que tais casos surgissem. Surpreendentemente, próximo ao fim da guerra, o General Patton descobriu que quando um bunker ficava cercado e um tanque lançava uma pequena rajada de chamas do lado de fora, o alemães se rendiam em massa, diferentemente dos japoneses.

Lança-chamas M3, peça montada em tanques Sherman e Stuart .
Lança-chamas M9-7, com disparador tradicional



Lança-chamas M9-7, com o disparador tardio.
     Os lança-chamas tiverem algum uso na Guerra da Coréia e foram reformulados para serem utilizados, onde o modelo era o M2A1-2, uma versão melhorada do que usavam na WWII. 
   Durante a Guerra do Vietnã surgiu o modelo M9-7, com várias modificações e ampliação do alcance, mas no começo usavam o M2A1-7, que era uma melhoria do M2A1-2 usado na Coréia.
M202 Flash

M202 Flash
     O M9-7 foi o último modelo de lança-chamas em uso no US Army, pois em 1978 eles foram aposentados e substituídos pelo M202 FLASH, um lançador de foguetes incendiários que você deve ter visto no filme Comando Para Matar, com o velho Arnold. Dessa forma, sabe-se que qualquer uso militar por parte dos EUA de lança-chamas depois 1978 é apelo de Hollywood. Vale ressaltar que a aposentadoria desse tipo de arma se deve mais aos cuidados com a opinião pública sobre os danos causados pelo combustível usado, um tipo de napalm, que adere à pele e queima até se extinguir o combustível, do que realmente uma preocupação com o bem estar do soldado que porta o armamento, sendo esta última a razão oficial para findar a carreira de tal armamento no US Army: preservar os soldados do uso de tão perigoso equipamento. Isso não quer dizer que eles não tenham alguns em inventário... para alguma eventualidade.
     Curiosamente, o Brasil ainda desenvolvia lança-chamas em meados dos anos 80, quando ainda tinha uma indústria de defesa em franco desenvolvimento. A União Soviética usou amplamente lança-chamas durante o conflito do Afeganistão nos anos 80 e até hoje equipa seus tanques com esse dispositivo.

O personagem: Blowtorch

File Name: Hanrahan, Timothy P.
Grade: E-4
Birthplace: Tampa, Florida
Primary Specialty: Infantry Special Weapons
Secondary Specialty: Small-Arms Armorer

Blowtorch é altamente familiarizado com todos os dispositivos incendiários militares e com equipamentos de projeção de chamas. Para Blowtorch o uso do fogo é anterior ao arco e flecha. Expert Qualificado: lança-chamas M-7; família M16; Colt 1911Ai; Beretta 92.

O personagem original é colorido. Um baita de um alvo. 

A versão nacional é levemente mais escura que a estadunidense pela diferença do plástico ABS usado, que contém aditivos para a nossa incidência de UV, diferente do hemisfério norte. A outra diferença é o capacete utilizado: no Brasil usou-se o mesmo molde dos capacetes dos demais comandos em ação dos anos anteriores, enquanto nos EUA havia um capacete próprio com inserções onde se podia encaixar a máscara e que podem ser encaradas como lanternas para capacete, muitos úteis para abrir caminho em meio a fumaça de um campo atingido por chamas. 

A versão dos 25 anos reproduz esses tons. Já a versão POC tem tons mais escuros e opacos, o que o torna mais real, além dos acessórios mais específicos e um fuzil. O machado é o máximo. 

Pensando em tudo isso e vendo como era utilizada a arma durante o Vietnã, optei por  mudar tudo para algo mais urbano, como um uniforme cinza e detalhado em verde acetinado. Isso torna a figura mais próxima ao que realmente deveria ser enquanto um soldado de infantaria, mesmo que portando uma chamada "arma especial". O capacete do Acessory Pack caiu como uma luva, assim como a mochila-tanque. A máscara repintada em preto dá o tem sinistro que alguém que vai torrar seus inimigos deve ter.

      
Lança-chamas -Estrela S.A. 

Blowtorch - Hasbro INC


Blowtorch - Hasbro - 25th Anniversary

Blowtorch - Hasbro - Pursuit of Cobra

Blowtorch - Custom
Blowtorch - Custom

Blowtorch - Custom


Comparação - Tocha (Estrela) à esquerda; Blowtorch, à direita

As três figuras em comparação.

Ref.: The Illustrated Manual of U.S. Portable Flamethrowers, Charles S. Hobson, SCHIFFER PUBLISHING, 2010.

Monday, December 31, 2012

O Dia D - Uma visão de Abbott Joseph Liebling


O Dia D
Texto publicado pela Folha de São Paulo no Caderno Mais!, no domingo, 11 de outubro de 1998.

O texto de que o Mais! reproduz  um trecho nesta e na próxima página foi escrito pelo jornalista norte-americano Abbott Joseph Liebling (1904-1963) para a revista “The New Yorker” na década de 40 – posteriormente, ele foi incluído no livro “Mollie & Other War Pieces” (Mollie & Outros Artigos de Guerra, Editora Shocken).
Liebling participou do desembarque das tropas aliadas na Normandia, França, no Dia D (6 de junho de 1944). Percebendo que presenciava uma das mais importantes operações militares da história, optou por escrever uma reportagem seca e direta, sem floreios de estilo ou tentativas de reflexão. Algumas das cenas iniciais de “O Resgato do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg, são claramente inspiradas no texto do jornalista.

Por Abbott Joseph Liebling
Tradução de Clara Alain





            Em tempos de paz ou de guerra a travessia do Canal da Mancha de navio sempre começa com os passageiros no mesmo estado de ânimo: todos esperando que não tenham enjoo. Trata-se, de modo geral, de um fator de moral favorável para a véspera de uma invasão. Um soldado não pode se angustiar com possíveis ataques da Luftwaffe (Força Aérea Alemã) ou das lanchas torpedeiras quando está preocupado consigo mesmo, e o temor difuso de topar com armas secretas na outra margem do canal é contrabalançado pelo urgente desejo de pôr os pés sobre essa outra margem.
            Poucos dos 140 passageiros do LCI-(L) (Landing Craft Infantry – Large – Embarcação de Desembarque de Infantaria – Grande), na qual eu estava, tiveram  enjoo forte na noite antes do Dia D, mas todos estavam ocupados pensando nisso. Os quatro oficiais e 29 homens da Guarda Costeira dos Estados Unidos que compunham a tripulação nem sequer estavam enjoados, mas tinham trabalho a fazer, o que funcionava igualmente bem.
            O mal tempo sobre o qual os jornais falaram tanto depois do Dia D e que, de fato, atrapalhou o desembarque, não era o tipo que faz balançar transatlânticos ou mesmo navios de travessia do Canal da Mancha; era apenas um pouco mau demais para os tipos menores de embarcações de desembarque que usávamos.
            Uma LCI(L), como seu próprio nome indica, não é uma das menores, mas é bastante pequena, e, a bordo de nossa embarcação de 300 toneladas e fundo chato, o canal não parecia estar especialmente ruim naquela noite. O mar ficou agitado durante uma hora depois de deixarmos o porto, mas depois disso a viagem foi melhor do que eu previra. As LCTs (Landing Craft Tank, Embarcação de Desembarque – Tanques), construídas como cubas abertas com 30m de comprimento, para transportar veículos blindados, tiveram dificuldades muito maiores, especialmente porque, por serem lentas, tiveram que partir horas antes de nós. As LCM (Landing Craft – Mechanized, Embarcação de Desembarque – Mecanizados), de 15m e as LCVPs (Landing Craft – Vehicle and Personel, Embarcação de Desembarque- Veículos e Pessoal), de 15m e de 11m, enfrentaram ainda mais problemas.
            A partida de nosso grupo de LCI(L)s não foi muito impressionante – apenas uma fila dupla de navios, saindo em direção a um encontro marcado com muitos outros navios, às 3h, a 16 ou 24km de distância de um ponto no litoral da Baixa Normandia. A maioria dos soldados viajou em grandes embarcações de transporte, a partir das quais embarcações menores os levaram até a praia. As LCI(L)s carregavam unidades especialmente embaladas para serem entregues na porta de entrada da Europa.
            O tenente Rigg foi dormir cedo naquela noite porque estar  queria estar bem descansado para enfrentar um dia de trabalho duro quando chegássemos ao ponto de encontro marcado, que teria lugar na área conhecida como área de transporte. O comandante do batalhão naval de praia que viajava conosco fez o mesmo. Eu passei algum tempo em pé no convés. Assim que senti sono, desci para o pequeno compartimento, no qual tinha um beliche, e dormi – vestido, naturalmente.
            Não parecia haver mais nada a fazer, Isso foi por volta das 20h. Acordei três horas mais tarde e vi o sujeito a meu lado vomitando num saco de papel, subi para a cozinha e tomei um café. Depois voltei para meu beliche e dormi até ser acordado novamente por uma mudança de movimento e no ruído dos motores.
            O navio estava balançando devagar, e calculei que tivéssemos chegado à área de transporte e que estivéssemos fazendo hora. Olhei meu relógio de pulso e vi que estávamos na hora. Eram aproximadamente 3h. Logo, não havíamos sido atingidos por uma lancha torpedeira. Que bom. Sonolento, estranhei um pouco o fato de o inimigo não ter feito qualquer tentativa de interceptar a frota e desejei que houvesse boa cobertura aérea, porque estava certo de que a Luftwaffe não teria como deixar passar em branco o maior alvo da história.
            Decidi permanecer em meu beliche até o amanhecer, cochilei, acordei outra vez e resolvi que não iria conseguir dormir. Subi para o convés na luz cinzenta que acontece a aurora, em algum momento antes das 5h. Servi-me de uma xícara de café de uma urna elétrica na cozinha e fiquei em pé ao lado da porta, tomando café e olhando para os grandes navios ao nosso lado. Ao lado deles, eu me sentia proletário. Eles iriam permanecer no meio do canal e enviar suas tropas para a praia em embarcações pequenas, enquanto navios operários como o nosso avançariam até a praia.
            O navio de comando do almirante estava ali ao lado. Eu o imaginava todo equipado com engenhocas espertas que registrariam o correr da operação. Imaginava a chegada de um relatório lacônico detalhando a aniquilação de uma frota de LCI(L)s, incluindo a nossa, e podia ouvir algum sujeito dizendo: “Afinal, esse tipo de coisa era de se esperar”. Depois senti que tudo ficaria bem, porque sempre havia sido assim. Um segundo contramestre, segunda classe, chamado Barret, de Rich Square, Carolina do Norte, parou ao meu lado para tomar seu café e falou: “Apostei um dólar com Findley que desta vez seremos atingidos. Quase sempre somos. É dinheiro certo”.
            Eu sabia que só começaríamos a nos deslocar por volta das 6h30, horário programado para o primeiro homem pisar na praia. Então deixaríamos a área de transporte para que pudéssemos abicar na praia e dar conta de nossa tarefa específica: desembarcar um pelotão do batalhão naval de praia e um pelotão de engenheiros anfíbios do Exército às 7h35. Um bombardeio preliminar das defesas da praia pela Marinha estava previsto para começar ao amanhecer. “Daqui a pouco vamos começar a ouvir os canhões”, eu disse a Barret, e subi a escada para o convés superior. Rigg estava na ponte de comando, tomando café, e com ele estava Long, o oficial engenheiro do navio. Começou a ficar mais claro, e os canhões entre nós e a praia começaram a disparar. O som nos alegrou a todos, e Long falou: “Eu odiaria ser alvo desse fogo”. Antes do amanhecer, as barcaças de transporte haviam começado a colocar homens nas embarcações pequenas que se dirigiam à linha mais próxima à costa, desde a qual seria lançada a primeira onda de ataque.
Agora o tempo já se arrastava. Começamos a avançar antes do que eu previra, não sei bem por quê. As primeiras tropas já estavam nas praias. Enquanto nos aproximávamos, o encouraçado Arkansas e os cruzadores franceses Montcalm e Georges Leygues disparavam a nosso estibordo. Disparavam contra alvos situados mais longe em terra. Nuvens de fumaça amarela de explosivos se elevavam no ar. Havia algo de leonino em sua tonalidade e também no rugido que as seguia após aquele lapso de tempo que nunca deixa de me desconsertar. Passamos pelos navios grandes, como um garotinho que recebe a benção paterna. Evidentemente, os alemães não tinham canhões de longo alcance nas praias, como os que havia perto de Calais, já que o fogo dos encouraçados não recebia resposta. Isso me deu uma sensação boa. A ausência de resistência sempre aumenta minha confiança. O comandante do batalhão naval de praia subiu ao convés vestido como soldado, de macacão esverdeado e capacete de latão. Eu lhe disse em tom alegre: “Bem, parece que a maior dificuldade que o senhor terá será enfiar os pés na água fria”.
            Ele ficou  ali um minuto e disse: “O que você está pensando?”.
            Respondi: “Não sei por que, mas estou pensando no restaurante do jardim atrás do Museu de Arte Moderna, em Nova York”[1]. Ele riu, e eu lhe dei um par de binóculos que tinha, porque sabia que ele não tinha binóculos e que teria usos importantes para fazer dele.
            Nossos passageiros – o pelotão do batalhão de praia e os engenheiros anfíbios – estavam formando filas no convés principal, cada grupo de frente para a rampa pela qual iria descer do navio. Vaghi e Reich, oficiais de baixa patente do batalhão de praia, estavam enfileirando seus homens a bombordo, e Miller, um tenente do Exército com barba recente, organizava seus homens a estibordo. Desejei boa sorte ao comandante e subi para a ponte de comando, que era pequena e estava lotada, mas oferecia a melhor visão.
            Uma LCI(L) tem duas rampas, uma de cada lado de sua proa, que ele abaixa e projeta a sua frente ao abicar. Cada rampa é manejada por meio de um guincho operado por dois homens; os dois guinchos ficam lado a lado, num convés logo à popa da proa. Se os guinchos não funcionam, a operação inteira fracassa, de modo que o capitão de um LCI(L) sempre destaca homens confiáveis para operá-los. Dois marinheiros chamados Findley e Lechich estavam no guincho de bombordo, e dois que eu conhecia como Rocky e Bill operavam o outro. Willians, o oficial executivo do navio, estava no convés de baixo, ao lado dos quatro.
            Já fazia tempo que avistávamos a costa, e eu reconhecia nossa faixa de praia pelas fotos de inteligência que vira. Lá estava a casa com a torre, no alto do penhasco a nosso estibordo. Havíamos sido avisados de que o bombardeio preliminar talvez o destruísse, de modo que não deveríamos contar demais com ela como ponto de referência; mas lá estava a casa, e senti prazer em reconhece-la. A previsão era que um caminho teria sido aberto (por explosão) e varrido para nós em meio ao elemento C (obstáculos de concreto e ferro submarinos) e às minas, e sua entrada, marcada com boias coloridas. As boias estavam lá, de modo que evidentemente, a operação estava seguindo conforme o previsto. Nossa LCI(L) fez sua volta e dirigiu-se à abertura. Não sei se Rigg de repente começou a se preocupar com minha segurança ou se simplesmente não me queria lá, atrapalhando quem estava na ponte de comando, onde dois oficias e dois sinaleiros já estavam tendo dificuldade em se movimentar, mesmo sem a minha presença. Falou: “O sr. Liebling assumirá seu lugar no convés superior durante a ação”. Era linguagem formal de um rapaz que eu já me acostumara a chamar de Bunny, mesmo porque a ação não parecia estar violenta, mas desci a escada curta da ponte para o convés, com isso colocando a casa do leme entre mim e a proa. O convés superior também era o posto de um imediato de farmacêutico de nome Kallam, que era nosso reserva de primeiros socorros. Uma embarcação de desembarque não conta com médico – a teoria é que o imediato de farmacêutico fará os reparos temporários até que o paciente possa ser transferido para um navio maior. Tínhamos a bordo dois homens que ocupavam esse cargo. O outro, um sujeito chamado Barry, estava lá em cima, na proa. Kallam era um rapaz pálido e alto da Carolina do Norte que certa vez me contou que ingressara na Marinha em tempo de paz, quando jovem, e desde então nunca soubera fazer outra coisa.
            A costa descrevia uma curva em nossa direção, pelo lado de bombordo do navio, e quando olhei naquela direção vi muita fumaça vinda do que pareciam ser granadas explodindo na praia.
            Também havia um LCT encalhada e em chamas. “Parece que está havendo oposição:, disse a Kallam, com pouca originalidade. Mais ou menos no mesmo momento alguma coisa caiu na água a nossa quadra da popa, enviando jatos de água no ar. Estávamos nos aproximando rapidamente da praia. Pelo plano que vira tantas vezes nos últimos dias, eu podia visualizar a pista estreita e reta na qual tínhamos que nos manter. A vista desde cada um dos lados mudava rapidamente. A LCT que estivera a nossa proa de bombordo agora estava à nossa quadra de bombordo, e também se via outra LCT, também encalhada. Vários homens que evidentemente acabavam de abandoná-la estavam n’água, alguns até o pescoço e outros até as axilas, e não pareciam estar tentando chegar à praia. Balas luminosas[2] zuniam em volta deles, que pareciam estar perplexos. O que mais odeio nas balas luminosas é que, a cada vez que você vê uma, sabe que há outras quatro que você não viu, porque o cinto das metralhadoras é carregado com apenas uma bala luminosa em cada cinco balas. Justamente nesse momento, me parece em retrospectiva, senti o navio dar no seco.
            Olhei para baixo, para o convés principal, e os homens do batalhão de praia já estavam avançando, então percebi que as rampas deveriam ter sido abaixadas. Eu ouvia Long gritando: “Mexam-se! Mexam-se, para frente”. Mas os homens não precisavam de incentivo – estavam avançando sem sinal de hesitação. Já não era preciso olhar longe para encontrar as balas luminosas, e Kallam e eu achatamos as costas contra a casa do leme e encolhemos as barrigas, como que para dar uns centímetros a mais de passagem livre para as possíveis balas. Senti uma coceira na nuca. Pus a mão no lugar e descobri que estava com a maior parte do cordame do navio caído em meu pescoço e ombros, como um personagem de alguma comédia antiga sobre uma fábrica de espaguete. O cordame havia sido destroçado pelas balas. Quando Kallam e eu olhamos para a popa, vimos um quadro que lembrava um cartaz pedindo recrutas para as Forças Armadas. Havia um canhão de 20milimetros, disparos rápidos, no convés superior. Como não podia avançar devido à casa do leme e não havia nada contra o qual atirar de cada lado, estava apontando diretamente para o alto, preparado para um possível ataque de bombardeiros de mergulho. O canhão era tripulado por três homens, e eles estavam ajoelhados a sua volta, um de cada lado e outro atrás do cano, todos olhando para o céu com um olhar fixo e protegendo-se o máximo possível atrás do escudo do canhão. Como pano de fundo para as cabeças dos homens, uma bandeira americana na popa do navio cobria nosso campo de visão. Era uma bandeira nova que Rigg mandata hastear pela primeira vez na invasão, e suas cores brilhavam ao Sol. Para tornar perfeito o motivo do cartaz, um dos três homens era um negro, Willian Jackson, de Nova Orleans, comissário do alojamento dos oficiais, que, como todos na LCI(L), se desincumbia de múltiplas tarefas.
            O último passageiro já havia descido do navio, e eu ouvia o cabo da âncora de popa batendo no tambor enquanto subia. Uma UCI(L) abaixa a âncora de popa logo antes de dar em seco e solta de 50 a 100 braças de cabo enquanto lentamente desliza os últimos metros até a praia. Para começar a andar novamente, recolhe o cabo e se puxa até voltar a boiar. Até aquele instante eu não percebera o quão estava ansioso para ouvir o som do cabo que se segue à ordem de “Recolher âncora de popa”. Praticamente no mesmo momento em que o cabo começou a ser recolhido, alguma coisa atingiu o navio com o som sólido de metal contra metal – não tão duro quanto uma colisão ou uma explosão de bomba, apenas um som de choque. Long berrou em nossa direção: “Imediato do farmacêutico, par a proa. Alguém se machucou”. Kallam desceu a escada do convés principal, carregando sua maleta. Depois Long gritou para o homem do guincho da âncora de popa: “Dá-lhe tudo!”. Uma LCI(L) tem que se puxar para fora e recolher sua âncora para poder usar seus motores, senão a hélice pode se enrolar no cabo. O motorzinho que move o guincho é fabricado por uma companhia de equipamentos agrícolas de Waukesha, Wisconsin, e cada gorta de gasolina que entrava no motorzinho do nosso navio tinha que passar primeiro por um filtro de camurça. Aquele motor é a apólice de seguro do navio. Um marinheiro subiu a escada correndo, vindo da cabine. Ele me agarrou e gritou: “Duas baixas na proa!”. Passei a informação para a ponte de comando, sem saber se adiantaria alguma coisa; ambos os imediatos de farmacêutico já estavam lá e, na realidade, não havia mais nada a se fazer. Nossa embarcação já estava livre na água, a âncora recolhida, e os motores entraram em ação. Ela deu meia volta e avançou em alta velocidade, como um destroier. O imediato do maquinista-chefe contou, depois, que os motores fizeram 700 rotações por minuto, em lugar das 600 que eram sua velocidade máxima normal. Granadas provocavam esguichos d’água à nossa volta; a água que subia parecia estar negra. Mais tarde, Rigg falou: “É engraçado. Quando estávamos entrando, minha atenção toda estava voltada a duas minas presas a blocos de concreto afundados nos dois lados de lugar por onde entramos. Eu sabia que não haviam sido retiradas – apenas havia sido aberto um caminho entre elas. Eram ‘minas aranhas’, aquelas que têm um monte de cabos soltos. Basta encostar em um cabo e você detona a mina. Quando estava saindo, eu estava tão maluco que me esqueci totalmente das malditas minas e só me lembrei delas quando estavam três quilômetros para trás”.
            Um marinheiro passou por nós e Shorty, um dos homens que tripulava o canhão, perguntou: “Quem foi?”. O marinheiro disse: “Rocky e Bill. Estão detonados. Uma granada pegou o guincho, a rampa e tudo”. Fui até o convés do poço. Estava grudento, coberto por um misto de sangue e leite condensado. Os soldados haviam deixado caixas de mantimentos jogadas por todo navio, e um fragmento de granada que atingira os rapazes destroçara uma caixa de latas de leite. Rocky e Bill tinham sido transferidos para um dos grandes compartimentos dianteiros, abaixo do convés. Rocky estava morto sem sombra de dúvida, alguém me disse, mas os imediatos do farmacêutico tinham dado plasma sanguíneo a Bill e achavam que talvez ele ainda estivesse vivo.
            Um terceiro ferido, um soldado vestido de cáqui, estava deitado numa maca no convés, respirando, ofegante, pela boca. Seu rosto parecia a pele suja de um tambor; a pele estava branca e muito esticada sobre os ossos da face. Ele não estava fazendo muito barulho. Um cheiro de galeria de tiro ao alvo cobria tudo, e, quando passamos perto do Arkansas ele disparou uma salva de artilharia, dois homens que estavam de costas para nós tremeram e precisaram ser tranquilizados. Long e Kavanaugh, o oficial de comunicações, já estavam andando pelo navio tentando colocar as coisas em funcionamento outra vez, mas com pouco êxito inicialmente.
            Na metade do caminho de saída da área de transportes, outra LCI(L) nos fez parar e pediu para levarmos um ferido a bordo. Haviam pego de alguma embarcação menor, mas tinham que completar uma missão antes de retornarem aos navios grandes. Fomos até o lado e o puxamos por cima da grade. Ele estava embrulhado em cobertores cáqui e amarrado numa maca, dentro de um cesto de metal. Quando nos afastamos, um homem a bordo da outra LCI(L) gritou para que voltássemos, para que pudesse nos dar  um vidro semivazio de plasma do qual saia um tubo de borracha. “Isto aqui o acompanha”, falou. Voltamos até onde estava o ferido e demos o vidro a um dos nossos sujeitos. Foi trabalho em vão, porque o homem já tinha parado de respirar.
            Abrimos caminho até um navio de transporte chamado Dorothea Dix, equipado com uma enfermaria. Atracamos bordo a bordo. Um jovem médico naval desceu pela rede pendurada ao lado do Dix e subiu a bordo. Depois de olhar para nosso soldado, pediu uma boia calção, e o soldado foi puxado para bordo, sentado nela. Ele tinha sido atingido no ombro e em uma perna, e o médico disse que tinha boas chances. Os três outros tiveram que ser enviados em cestas de metal, verticalmente, como bebês índios. Dois negros no convés no Dix jogaram uma corda que nossos homens amarraram ao alto de uma cesta após outra. Depois os negros puxavam o homem para cima, como se ele fosse para o céu. Agora que não levávamos mais passageiros e estávamos mais leves, o mar parecia estar agitado. Balançávamos sob o enorme navio de transporte, e os feridos balançavam loucamente no final da corda, algumas vezes quase se chocando com o navio. Um home da Guarda Costeira segurou o fundo de uma das cestas para firmá-la. Pelo menos um litro de sangue escorreu sobre ele, cobrindo seu capacete de latão, seu rosto virado para cima e seu macacão azul. Ele ficou parado por um instante, como se não soubesse o que havia acontecido, enxergando o mundo através de uma camada vermelha, porque usava óculos e o sangue recobrira as lentes.[3] Balançando a esmo, a cesta subiu. Depois de alguns segundos, o homem da Guarda Costeira correu até a pia à popa da cozinha, onde abriu a torneira e começou a se lavar. Alguns minutos depois de a última liteira ter sido puxada para bordo, um oficial do Dix encostou na grade e gritou: “O oficial médico diz que dois desses homens estão mortos! Ele diz que vocês devem leva-los de volta à praia e enterrá-los”. Do lugar onde estávamos, a 25km da praia, ele evidentemente pensava que se tratava apenas de mais um exercício de desembarque. Um marinheiro que estava no convés falou: “O filho da puta deveria ver aquela praia para saber como está”.
            Rigg explicou ao oficial que seria impossível retornar à praia e mandou os homens desamarrarem as cordas, e deixamos o Dix para trás. Agora que estávamos livres dos mortos e feridos, vi Kallam esgueirar-se até a grade do outro lado e vomitar mais do que eu já vira qualquer homem vomitar no mar. Passamos bem perto do navio de comando e assinalamos que havíamos completado nossa missão. Recebemos o sinal de “aguardar ordens” e passamos o resto do dia sem fazer nada, enquanto tentávamos reconstruir o que nos acontecera. Quase todos que estavam a bordo sentiam dores de cabeça.
            “O que me deixa mais chateado”, disse Lechich, “é pensar no que aconteceu àqueles coitados que desembarcamos. A praia estava fervilhando de alemães. E eles não tinham nada com que lutar – só carabinas e fuzis. Nem sequer estavam previstos para serem usados como tropas de combate”.
            “Acho que nenhum deles deve estar vivo agora”, disse outro homem.
            À medida que as horas passavam e não recebíamos ordens de fazer nada, tornou-se evidente que nosso trechinho de praia não estava se saindo bem, pois havíamos previsto, depois de entregar nosso primeiro lote na praia, ser empregado para levar outros grupos de soldados das embarcações de transporte até a praia, que, enquanto isso, os rapazes do batalhão de praia e os engenheiros estariam ajudando a limpar. Outras LCI(L)s de nossa flotilha também estavam ociosas. Vimos uma delas sendo rebocada e depois a vimos virar. Disseram-nos que três outras estavam deitadas em um trecho da praia, queimadas. As embarcações de desembarque eram vistas como equipamento que podia ser sacrificado, quando preciso. Rigg desceu da ponte de comando e, ao me ver, disse: “A praia está fechada às LCI(L)s. Só barquinhos pequenos estão entrando. Queria que eles tivessem pensado nisso antes. Perdemos três homens bons”.
            “Quais três?”, perguntei. “Estou sabendo de Rocky e Bill”.
            “O timoneiro se foi”, disse Bunny. Eu me lembrava do timoneiro, um jovem sério e sincero que queria ser jornalista e que, vestindo apenas calção, iria descer antes de todo mundo e puxar um cabo de amarração até a praia.
            “Ele não conseguiu voltar?”, perguntei.
            “Não conseguiu ir a lugar nenhum”, respondeu Rigg. “Deu um passo para fora da rampa e foi desintegrado. Deve ter pisado bem em cima de uma granada de alto explosivo. Cox era um bom menino. Nós o tínhamos recomendado para a escola de oficiais”. Rigg saiu em busca da inevitável xícara de café, sacudindo a grande cabeça. Percebi que também ele estava com dor de cabeça.
            Um pouco mais tarde, perguntei a Rigg o que estivera pensando quando nos aproximamos da praia, e ele disse que estava bravo porque os homens que íamos desembarcar não tinham tomado um café. “Em vez disso, os coitados passaram o máximo de tempo possível na cama”, disse. “Desembarcar sem nem mesmo tomar um café!”
           
Obs.: As fotos reproduzidas nesta matéria foram realizadas por Robert Capa, um dos maiores nomes da história da fotografia e que realizou os documentos visuais mais fortes do desembarque dos aliados na praia de Omaha, em 6 de junho de 1944.
Capa nasceu em Budapeste em 1913. Em 1939 emigou para o EUA. Em 1947 fundou com Henri Cartier-Bresson a agência Magnum. Suas imagens de Omaha, feitas para a revista "Life" influenciaram decisivamente a estética de Spielberg na primeira sequencia de "O Resgate do Soldado Ryan". Capa morreu em 1954.

[1] Eu gostava de uma mulher que vivia do outro lado da rua, em frente ao restaurante.

[2] Por “luminosas” entenda-se munição traçante.

[3][3] Este homem era eu. Pareceu-me mais discreto na época descrever a cena assim – um artigo de jornal no qual o autor dissesse que ele próprio ficou banhado em sangue me faria desconfiar de sua veracidade se eu fosse o leitor.